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1 Mulher

até para nascer temos que dar a volta

1 Mulher

até para nascer temos que dar a volta

margaridas, dálias e rosas

Após uma curta estadia em casa dos pais, os avós regressavam ao Alentejo, para sua modesta casa. Tinham vindo por poucos dias, para mais umas consultas de rotina, que ambos faziam frequentemente, com o intuito de manter alguma qualidade de vida, o que com os seus oitenta e poucos, já escasseava.

Nesses dias dormiam no pequeno quarto dos pais, e eles por sua vez no velho e quente sofá da sala. A cama era vestida de frescos lençóis com cheiro a lavado, onde a mãe cuidadosamente dispunha as almofadas e uma colcha - para taparem as pernas a meio da noite - dizia ela. O quarto era todo adaptado em função das necessidades dos avós. Levávamos um bacio de metal para o quarto, porque as pernas dos avós já estavam muito cansadas para andarem de um lado para o outro durante a noite, e até os tapetes velhos que a mãe tinha guardado na arrecadação, regressavam nestes dias, para dar mais conforto a esta assoalhada. Na cómoda os guarda-jóias e as molduras, davam lugar à pequena “farmácia da avó”, um jarro com água fresca e um copo.

Todos sabíamos o quanto eles gostavam de estar em nossa casa, mas o avô estava tão habituado às lidas do campo, que rapidamente - se aborrecia de estar fechado em casa - dizia.

As despedidas eram sempre difíceis, ainda que fossem somente isso: despedidas. Naquele Domingo ensolarado, quando cheguei para passar a última tarde com eles antes de regressarem a casa, senti sempre uma grande tristeza, um aperto no coração, que não sei descrever. Falámos como habitualmente, rimos das histórias do avô. Ele era tão engraçado, começava a contar as histórias da sua vida, longa vida ......

“....Estava nos portais do monte com a tua avó, quando vi aparecer ali por cima da Descorrás, uma grande bola no ar... assustados fechámos-nos em casa, porque poderia ser perigoso, além do mais como poderia uma bola andar no céu?....Mas sabes o que era? O Zeppelin....”

Terminava uma história e iniciava outra logo de seguida, quase que nem tínhamos tempo de acompanhar o seu raciocínio. Aqueles momentos para mim, foram especiais, de tal forma que ao “despedir-me” foi como se essa despedida fosse um adeus, que inundou o meu coração de tristeza, e fez cair dos meus olhos lágrimas cheias de dôr. Foi estranho sentir-me assim, não entendi o porquê na altura, somente dias mais tarde tudo se clarificou na minha cabeça.

Três dias depois, e já no Alentejo, durante uma refeição a avó sentiu-se muito mal e foi levada de urgência para o hospital mais próximo, o de Beja. Nada nem ninguém fazia prever o que aconteceu a seguir. A mãe já com o algum receio do que pudesse acontecer, partiu numa quente manhã de Agosto, na esperança de vê-la e abraçá-la. Mas ela Foi Levada 30 min antes da mãe chegar.

Enquanto a mãe geria a dor desta grande perda, nós éramos acordados pelo calor do verão mais cedo que o habitual, para dias de férias, mas assim também íamos aproveitar ao máximo o dia de praia. Enquanto tomávamos o pequeno almoço o telemóvel tocou .... atendi ...... foi como se o meu mundo acabasse. A voz trémula da mãe do outro lado dizia – já não temos avó. Foi um choque, não era possível, não podia ser. Depois os acontecimentos foram em catadupa, avisar todos os familiares próximos, avisar o pai, e ir ao seu encontro.

As duas horas de viagem pareceram uma eternidade, devido a ansiedade de a ver, de a abraçar. A avó dormia, num sono profundo e silencioso. O seu cabelinho estava apanhado com um troço, como ela habitualmente fazia, vestiram-lhe uma das suas melhores roupas e estava coberta por um manto de coloridas flores, de que ela tanto gostava. Em seu redor, vários pedaços de sua vida, representados por cada elemento da família.

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